segunda-feira, 25 de maio de 2009

Teu Riso

Tira-me o pão, se quiseres,
Tira-me o ar, mas não
Me tires o teu riso

Não me tires a rosa,
A lanca que desfolhas,
A água que de súbito
Brota da tua alegria,
A repentina onda
De prata que em ti nasce

A minha luta e dura e regresso
Com os olhos cansados
As vezes por ver
Que a terra não muda,
Mas ao entrar teu riso
Sobe ao céu a procurar-me
E abre todos
Os portos da vida

Meu amor, nos momentos
Mais escuros solta
O teu riso e se de subito
Vires que o meu sangue mancha
As pedras da rua
Ri, porque teu riso
Será para as minhas mãos
Como uma espada fresca

A beira do mar, no outono,
Teu riso deve erguer
Sua cascata de espuma,
E na primavera, amor,
Quero teu riso como
A flor que esperava,
A flor, a rosa
Da minha pátria sonora

Ri-te da noite,
Do dia, da lua,
Ri-te das ruas
Tortas da ilha,
Ri-te deste grosseiro
Rapaz que te ama

Mas quando abro
Os olhos e os fecho
Quando meus passos vão,
Quando voltam meus passos
Nega-me o pão, o ar
A luz, a primavera
Mas nunca o teu riso
Porque então morreria.

Pablo Neruda

Nenhum comentário:

Postar um comentário